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Cimed investe R$ 80 milhões em skincare e escolhe um nome que já tinha dono

A Cimed lançou em 12 de outubro de 2026 a Mili, sua primeira marca de cuidados com a pele, com produtos feitos na Coreia do Sul e R$ 80 milhões investidos, e em 15 de outubro a Mili S.A., fabricante de higiene e cuidados pessoais, disse não ter nenhum vínculo com a linha e ter o nome registrado desde 1986.

Wanderson Poster
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19/10/2026 às 08:40 · 7 min de leitura · Marca
Cimed investe R$ 80 milhões em skincare e escolhe um nome que já tinha dono
Imagem gerada por IA, ilustrativa

A Cimed apresentou em 12 de outubro de 2026 a Mili, sua primeira marca de skincare voltada ao consumidor final, segundo o InfoMoney, com sete produtos fabricados na Coreia do Sul e R$ 80 milhões investidos, e projeta R$ 150 milhões de faturamento no primeiro ano. Três dias depois, em comunicado de 15 de outubro citado pelo Cosmetic Innovation, a Mili S.A., fabricante brasileira de produtos de higiene e cuidados pessoais, disse não ter qualquer vínculo, associação ou parceria com a linha e afirmou que o nome está registrado no INPI desde 1986.

A Cimed apostou numa tendência real e num posicionamento de preço

O InfoMoney, com dados do Korea Customs Service, informa que as importações brasileiras de cosméticos sul-coreanos cresceram 951% em 2025 e chegaram a US$ 54,3 milhões, o que explica o interesse de uma farmacêutica por esse mercado. O presidente da empresa, João Adibe, disse ao InfoMoney que não pretende competir com marcas dermatológicas como La Roche ou Vichy e que quer a Mili como a "fast fashion da categoria", numa faixa intermediária de preço.

As fontes divergem em dois pontos. O InfoMoney e o Mercado&Consumo falam em preços de R$ 70 a R$ 200, enquanto o Correio 24 Horas fala em R$ 100 a R$ 200, e o InfoMoney aponta chegada às farmácias em janeiro de 2027, enquanto o Correio 24 Horas fala em novembro. O Meio & Mensagem, em texto de 13 de outubro, trata o prazo apenas como "os próximos meses" e não divulga preços.

A Cimed diz que observou a lei, e a Mili S.A. diz que o nome é dela desde 1986

A Mili S.A. publicou o comunicado oficial no próprio Instagram, em um card azul com o texto "Comunicado oficial", e a legenda repete o argumento: a empresa diz que não tem vínculo, associação ou parceria com a linha de skincare anunciada pela Cimed sob o nome Mili, que atua há mais de 43 anos em higiene e cuidados pessoais e que, "diante da sobreposição de marca", seu nome é registrado no INPI desde 1986 e ela tomará "todas as medidas cabíveis", sem detalhar quais. O mesmo comunicado foi reproduzido pelo Cosmetic Innovation.

Comunicado oficial publicado pela Mili S.A. no Instagram

A Cimed respondeu, em matéria do Cosmetic Innovation de 15 de outubro, que a marca Mili Cimed deriva de Milimetric, marca de estética que a farmacêutica lançou em 2023, e que observou as exigências da legislação, incluindo os procedimentos de registro. O próprio Cosmetic Innovation lembra que o comunicado da Mili S.A. não prova, sozinho, uma infração, porque o caso depende da análise dos registros, das classes de produtos e do risco de confusão para o consumidor.

O INPI mostra que a Mili S/A tem registro em vigor na classe de cosméticos, e a Cimed não aparece com o nome Mili

Uma consulta à base de marcas do INPI em 18 de outubro de 2026, pelo termo exato "Mili", retorna 33 processos. A Mili S/A é titular da maior parte, com registro em vigor na classe 03 em quatro deles, de prioridades de 25 de novembro de 1983, 27 de maio de 1994, 31 de outubro de 2002 e 7 de maio de 2015, além de registros em vigor na classe 05, que abrange produtos farmacêuticos e de higiene, em cinco processos, entre 2009 e 2015. Aparecem ainda registros dela em classes como 16, 21, 24 e 35, e o pedido mais antigo da lista tem prioridade de 1983, enquanto a empresa fala em registro desde 1986, uma diferença que provavelmente separa a data do pedido da data da concessão, que a tela da consulta não traz. Os demais processos pertencem a outras empresas, em classes distantes da de cosméticos, e nenhum está em nome da Cimed.

A classe 3 da classificação de Nice reúne cosméticos, sabonetes e perfumaria, o que coloca o registro da Mili S/A no mesmo território de uma linha de skincare. Pela Lei da Propriedade Industrial (Lei 9.279/1996), o INPI não deveria registrar uma marca que imite outra já registrada para produto idêntico, semelhante ou afim, e em regra vale quem pediu primeiro.

A busca pelo termo "Milimetric", a marca de onde a Cimed diz que a Mili deriva, retorna três processos em nome da Cimed & Co. S.A., todos com registro em vigor: dois com prioridade de 23 de julho de 2020, nas classes 03 e 05, e um de 5 de julho de 2022, na classe 05. A Cimed tem, portanto, um registro de Milimetric na classe de cosméticos, mas o nome Milimetric não é o nome Mili, e o INPI avalia cada sinal por si. A busca por "Mili Cimed" não retornou nenhum resultado, e o próprio INPI informa que a base está atualizada até 13 de outubro de 2026, um dia depois do lançamento, então um pedido protocolado depois dessa data ainda não aparece.

Uma marca derivada é uma decisão de arquitetura, e o consumidor não lê o histórico

A explicação da Cimed faz sentido do ponto de vista de gestão de marcas, porque a Mili nasceu da Milimetric, que o Meio & Mensagem apresenta como marca da empresa voltada a procedimentos estéticos, e o InfoMoney diz que Adibe pretende usá-la no cuidado pós-aplicação de preenchedor, levando a nova marca aos profissionais que a divisão já atende. Só que essa lógica vive dentro da empresa. Quem vê "Mili" na prateleira de uma farmácia não sabe que existe uma Milimetric, e quem já comprou um produto da Mili S.A. ao longo de quatro décadas associa o nome a ela, o que é justamente o risco de confusão que pesa numa disputa de registro.

Eu acho curioso que uma empresa que investiu R$ 80 milhões, fez uma imersão de três meses em quatro países asiáticos e avaliou dezenas de fabricantes, segundo o InfoMoney, tenha deixado o nome para ser discutido depois que o produto já estava anunciado. A busca de anterioridade no INPI custa pouco perto do resto da conta, e a imprensa especializada já recebeu, junto com o lançamento, uma segunda notícia que o departamento de comunicação não escolheu.

O que a Cimed pode perder é a primeira impressão da marca

O pior cenário para uma marca nova nem é perder o nome, porque trocar de nome antes de a linha chegar às farmácias, que é o que o cronograma permite, custa menos do que trocar depois. O que se perde é o espaço que o lançamento deveria ocupar. Desde 15 de outubro, parte da cobertura que poderia falar de exossomos, peptídeos e K-Beauty fala de disputa de marca, e a Mili S.A., que não gastou nada com o lançamento, ganhou a atenção de quem acompanha o setor.

O que ninguém sabe ainda é se a Mili S.A. vai de fato às vias administrativas ou judiciais, se a Cimed tem pedido de registro em andamento para cosméticos e qual é a classe dele, e se existe um acordo possível, como a convivência das duas marcas em segmentos diferentes. Quem decide isso é o INPI ou a Justiça, e nenhuma decisão foi noticiada até a publicação deste texto.

Fontes

  • InfoMoney, "Cimed entra na K-Beauty com linha de skincare a partir de R$ 70", 12 de outubro de 2026.
  • Meio & Mensagem, "Cimed entra no mercado de skincare com marca coreana", 13 de outubro de 2026.
  • Cosmetic Innovation, "Mili reage ao lançamento de marca de skincare da Cimed e anuncia medidas para proteger seu nome", 15 de outubro de 2026.
  • Instagram da Mili S.A., "Comunicado oficial", publicação consultada em 18 de outubro de 2026.
  • Cosmetic Innovation, "Cimed se posiciona sobre questionamento da Mili e esclarece origem da marca de skincare", 15 de outubro de 2026.
  • Mercado&Consumo, "Cimed investe R$ 80 milhões em skincare coreano e mira até R$ 150 milhões com nova marca", 12 de outubro de 2026.
  • Correio 24 Horas, "Depois do Carmed, Cimed investe R$ 80 milhões em skincare coreano com produtos de até R$ 200", outubro de 2026.
  • INPI, consulta à base de marcas pelos termos "Mili", "Milimetric" e "Mili Cimed", 18 de outubro de 2026 (base atualizada até 13 de outubro de 2026).
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