← Voltar para o blog

Engenharia reversa com IA ameaça as assinaturas de software

Um desenvolvedor lançou em outubro de 2026 sete clones gratuitos dos programas da Adobe feitos com IA, e o que mais circulou foi a satisfação de quem paga pelo original.

Wanderson Poster
Wanderson Poster
15/10/2026 às 14:50 · 5 min de leitura · Tecnologia
Engenharia reversa com IA ameaça as assinaturas de software
Reprodução/Adobe

Em outubro de 2026, o desenvolvedor Brandon Thomas, de Atlanta, publicou o ArtCraft, conjunto de sete aplicativos abertos que imitam a suíte da Adobe, do Photoshop ao InDesign, escritos em Rust com ajuda do modelo Claude Opus 5.5, segundo o Gizmodo de 7 de outubro de 2026. Quase todo mundo repetiu a manchete de que a IA fez engenharia reversa do Photoshop e de que os softwares proprietários estão acabando, mas o próprio projeto se descreve de outro jeito.

O próprio projeto se descreve como uma reimplementação do zero

O texto da Vice de 9 de outubro de 2026 fala em engenharia reversa, mas o projeto se descreve como uma reimplementação clean-room, termo para refazer o comportamento de um programa sem copiar o código original, segundo o OMG! Ubuntu. Não encontrei verificação independente dessa afirmação. O Gizmodo testou o PhotoCraft recortando uma imagem e colando em outra, e a ferramenta de transformação livre se mostrou imprevisível, enquanto o próprio Thomas escreveu no Hacker News que os apps estão em alfa e longe de estarem prontos, conforme o veículo. O OMG! Ubuntu, que abriu e salvou arquivos .psd no programa, concluiu que ele não substitui o Photoshop para quem trabalha com isso, e o desenvolvedor Fabio Akita contou em 13 de outubro mais de 800 problemas abertos no repositório.

A engenharia reversa de verdade existe e está avançando em outra frente. Akita cita o REA, ferramenta que liga agentes de IA a programas de desmontagem de binários e que passou de 100 mil estrelas no GitHub, mas lembra que ela exige o arquivo original, as ferramentas instaladas e muito gasto em tokens.

A Adobe ainda protege o que um clone de interface não alcança

Akita argumenta que o valor do Photoshop mora fora do binário, já que os recursos de IA generativa rodam nos servidores da Firefly e os perfis de lente e de cor por câmera foram acumulados por décadas. As bibliotecas da Pantone e os kits de fabricantes de câmera, ele lembra, chegam por contrato e não por código. A conclusão dele é que a Adobe não morreu, e que a engenharia reversa e a recompilação ficaram mais baratas sem deixar de ser trabalho de engenheiro. A Vice não registrou resposta da Adobe, e não encontrei nenhuma em outras fontes.

A comemoração tem origem num processo da Justiça americana

O azedume com a empresa é anterior ao clone, porque em 13 de março de 2026 o Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciou um acordo de US$ 150 milhões com a Adobe, com US$ 75 milhões em multa civil e outros US$ 75 milhões em serviços para clientes, segundo o Engadget e o Verdict, e a juíza distrital Noël Wise aprovou o acordo, de acordo com o MLex de 10 de abril de 2026. O processo, aberto em 2024 pelo governo, acusava a empresa de esconder a taxa de cancelamento do plano anual pago mensalmente, que seria de metade das parcelas restantes, e a Adobe nega irregularidade e diz ter simplificado o cancelamento.

O que os comentários mostram é uma conta de confiança em aberto

Li os comentários de um vídeo sobre o assunto que circulou em outubro esperando discussão técnica e encontrei, na maior parte, comemoração, o que diz mais sobre a Adobe do que sobre o clone. Um dos mais curtidos, com mais de 4 mil curtidas, afirmava que nenhum mal seria demais para a empresa. Outro, com mais de 1,9 mil, resumia a época dizendo que as empresas usam IA para substituir pessoas e agora as pessoas usam IA para substituir empresas. Um terceiro, com mais de 1,7 mil, chamou o episódio de "medicamento genérico dos softwares", e houve quem sugerisse que os executivos da Adobe já estariam pedindo conselho jurídico à Nintendo. Entre as piadas, a que mais rendeu, com mais de 3 mil curtidas, elogiava o WinRAR como a única empresa de software que merece respeito eterno, por viver há décadas de um período de avaliação que nunca acaba.

Cliente preso aguenta até aparecer uma saída

A lição está no que sustenta a base de clientes de uma empresa, e acho que muita gente confunde permanência com preferência. A Adobe segurou clientes por hábito e por multa de cancelamento, e o comentário que mais cresceu era de quem esperava havia anos uma alternativa para comemorar. A conta chega quando o concorrente aparece, mesmo imperfeito.

O limite do argumento é que um clone em alfa não prova migração em massa, e os comentários vêm de um vídeo de um canal de tecnologia, com público já inclinado a gostar de software livre, além de eu ter lido apenas os primeiros que a página carregou.

Cliente preso elogia o concorrente em silêncio até ele aparecer.

Fontes

Compartilhe este artigo
Newsletter

Receba os próximos artigos no seu e-mail assim que forem publicados.

Sem spam, cancele quando quiser. Política de privacidade.

Continue por aqui.