Segundo os comunicados das duas empresas, a união dobra a presença do iFood em benefícios corporativos se for aprovada, e até o aval do Cade e do Banco Central cada uma segue operando de forma independente. A manchete que mais circulou, a de que o iFood pagou R$ 1 bilhão e ganhou 3 milhões de usuários, mistura um número que nenhuma das duas confirmou com uma soma que o próprio NeoFeed diz não descontar sobreposição.
O preço que circula é estimativa de imprensa, e os veículos divergem em R$ 200 milhões
Nem o comunicado do iFood nem o da Caju trazem valor ou forma de pagamento. O Estadão/Broadcast apurou que a companhia desembolsou cerca de R$ 1 bilhão, e o InfoMoney registra que o O Globo estimou o mesmo valor. O startups.com.br também fala em R$ 1 bilhão em dinheiro, atribuído a fontes próximas ao negócio, enquanto o NeoFeed publicou que o iFood Benefícios agrega a Caju por mais de R$ 1,2 bilhão.
Para ter uma régua, a Caju captou R$ 13 milhões em 2020, R$ 45 milhões em 2021 e US$ 25 milhões em 2022, em rodada liderada pela K1 Investment Management, de acordo com o startups.com.br.
Os 3 milhões de usuários são uma soma, e a liderança continua longe
O iFood Benefícios tem 65 mil empresas clientes e 1,7 milhão de usuários, e a Caju tem mais de 70 mil empresas e 1,3 milhão de trabalhadores, segundo os comunicados. A conta de 135 mil empresas e 3 milhões de usuários vem de somar as duas pontas, e o NeoFeed ressalva que ela vale antes de eventuais sobreposições.
O mercado de benefícios movimenta cerca de R$ 150 bilhões por ano e atende mais de 22 milhões de trabalhadores, de acordo com as empresas. Alelo, Ticket, Pluxee e VR concentram mais de 80% do setor, segundo o NeoFeed. Pela conta da reportagem do startups.com.br, o grupo formado por iFood Benefícios e Caju teria cerca de 13% dos beneficiários do PAT, o que o colocaria na quinta posição. O que o negócio entrega, portanto, é tamanho para disputar com os grandes, e a liderança fica para outra conta.
O iFood já faz muito mais que entregar comida
O comunicado fala em mais de 500 mil estabelecimentos parceiros, mais de 600 mil entregadores e 65 milhões de consumidores em mais de 2.000 cidades.
O braço financeiro vai além do benefício. Em junho de 2024, o iFood apresentou o iFood Pago como "o banco dos restaurantes", com conta digital, crédito e maquininha, R$ 70 bilhões transacionados por ano, mais de 140 mil contas digitais e R$ 1,5 bilhão em crédito concedido, números da própria empresa. O site do iFood Pago lista duas empresas autorizadas, uma sociedade de crédito direto e uma instituição de pagamento, além de um correspondente bancário.
Minha leitura é que o iFood virou, na prática, um banco com um aplicativo de delivery por cima, e ele nem precisa de disfarce, já que ele mesmo chama o iFood Pago de banco dos restaurantes. O delivery traz o restaurante e o entregador, o iFood Pago empresta e recebe o dinheiro dele, e o benefício leva o salário do trabalhador de volta para esse mesmo caminho. Para quem trabalha com comunicação, vale reparar que a marca iFood passou a significar entrega e dinheiro, e que a segunda camada se apoia na confiança que a primeira construiu.
Dois concorrentes que nasceram no mesmo ano agora podem virar uma empresa só
A Caju foi fundada em 2020, assim como o iFood Benefícios, segundo o blog da própria Caju, e ambos disputavam o mesmo cliente corporativo.
O caminho até a Caju não foi o primeiro. O NeoFeed conta que uma aproximação anterior não avançou e que o iFood foi atrás da Alelo, mas as mudanças nas regras do PAT impediram a conversa.
O decreto do PAT abre a rede de aceitação, e isso ajuda quem chega
As regras vêm do Decreto 12.712, assinado em 11 de novembro de 2025, e a mudança é de decreto, não de lei. Ele limita a 3,6% a taxa cobrada dos estabelecimentos, com 2% de intercâmbio dentro do teto, e obriga os arranjos que atendem mais de 500 mil trabalhadores a serem abertos, sem exclusividade. O artigo 177 exige interoperabilidade plena, e a Agência Brasil informa que, com ela, qualquer cartão do PAT deverá ser aceito em qualquer maquininha a partir de novembro de 2026. A obrigação recai sobre os arranjos, e o texto não impõe ao estabelecimento a aceitação do cartão. As maiores empresas do setor obtiveram liminares contra a fiscalização das regras de taxa e de prazo, segundo o Ministério do Trabalho, e o decreto segue em vigor para as demais.
Para quem chega agora, a regra joga a favor. O InfoMoney diz que as mudanças reduziram a barreira de entrada e que iFood Benefícios, Caju e Flash ajudaram a abrir esse caminho, e uma rede compartilhada tira de quem já tem muitos estabelecimentos credenciados a vantagem de ter chegado primeiro. Pelos números das próprias empresas, as duas passam de 500 mil usuários, o que, se o critério do decreto for o mesmo, as colocaria na regra de abertura também, e os textos consultados não fazem essa conta.
O que ainda ninguém sabe
O preço e a forma de pagamento seguem sem confirmação oficial, e o prazo de análise do Cade e do Banco Central não consta dos comunicados. Os comunicados não dizem nada sobre o futuro da marca Caju nem dos cartões dela depois da conclusão, e só afirmam que não há impacto para clientes, colaboradores e parceiros enquanto as duas operam separadas. Também há divergência sobre o tamanho do negócio no próprio iFood, porque o blog da Caju fala na maior aquisição da história do iFood Benefícios e o Estadão atribui à Prosus a maior já feita pelo iFood.
Seis anos de marca própria, os da Caju, ainda não têm destino anunciado dentro do iFood.
Fontes
- iFood, comunicado "iFood Benefícios assina acordo para comprar a Caju", 20 de outubro de 2026 (números das duas empresas, falas dos executivos e aprovações pendentes).
- Caju, blog institucional, "Caju e iFood Benefícios se unem para acelerar a transformação do mercado de benefícios corporativos", 20 de outubro de 2026.
- InfoMoney, "iFood Benefícios compra Caju e acelera transformação de mercado de R$ 150 bilhões", 20 de outubro de 2026 (inclui a estimativa do O Globo, repassada).
- NeoFeed, "iFood Benefícios compra Caju por mais de R$ 1,2 bilhão", 20 de outubro de 2026.
- Estadão, "iFood compra Caju por cerca de R$ 1 bi e forma empresa de benefícios com 3 milhões de usuários", via Terra, 20 de outubro de 2026.
- startups.com.br, "iFood compra Caju e acirra competição no mercado de benefícios", 20 de outubro de 2026 (rodadas da Caju e posição no PAT, repasses das fontes da reportagem).
- Decreto nº 12.712, de 11 de novembro de 2025 (DOU de 12 de novembro), texto consultado em normaslegais.com.br, artigos 174, 177, 182-B e 182-D.
- Agência Brasil, "Novas regras para vales-alimentação e refeição entram em vigor", 10 de fevereiro de 2026 (interoperabilidade plena em novembro de 2026 e liminares das maiores empresas).
- iFood, comunicado "iFood Pago é a nova marca do primeiro banco dos restaurantes que já transaciona R$ 70 bi por ano", 20 de junho de 2024.
- iFood Pago, site institucional, rodapé com as empresas do grupo, consultado em 23 de outubro de 2026.
- O comentário sobre o iFood ser, na prática, um banco com aplicativo de delivery é opinião do autor e não consta das fontes citadas.














