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Americanas sai da recuperação judicial, mas a crise de reputação saiu junto?

Em 19 de outubro de 2026, a 4ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro decretou o fim da recuperação judicial do Grupo Americanas, três anos e nove meses depois da revelação das inconsistências contábeis, e a sentença cobre as obrigações do plano com vencimento em até dois anos após a homologação.

Wanderson Poster
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27/10/2026 às 11:00 · 6 min de leitura · Comunicação
Americanas sai da recuperação judicial, mas a crise de reputação saiu junto?
Arte: Cartaz Comunicação. Foto: Fronteira/Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0. Marca: Reprodução/Americanas

A cobertura do dia foi quase toda sobre o desfecho, com o fato relevante da companhia falando em marco importante e a ação em alta. Uma sentença de encerramento declara cumpridas as obrigações do plano, e o que ela deixa de fora aparece em frases que as manchetes costumam empurrar para o fim do texto.

A sentença encerra o processo e mantém a porta da falência aberta

O juiz Arthur Eduardo Magalhães Ferreira considerou cumpridas as obrigações do plano com vencimento em até dois anos depois da homologação, feita em 26 de fevereiro de 2024, segundo a Bloomberg Línea. A administração judicial e o Ministério Público do Rio opinaram a favor do encerramento, de acordo com a Agência Brasil. A decisão determina que a expressão "em recuperação judicial" saia do nome das empresas nos registros oficiais.

Ainda cabe recurso. O juiz escreveu que qualquer credor que se considere prejudicado por descumprimento de obrigação do plano pode pedir a execução específica ou a falência, conforme a Agência Brasil, e a Bloomberg Línea acrescenta que os incidentes de habilitação e de impugnação de crédito seguem na mesma vara. Também rejeitou a objeção de titulares de bônus que alegavam pagamento a menor na conversão de dólares para reais. O processo acabou, e as obrigações do plano continuam valendo.

O segundo trimestre foi pior que o de um ano antes, e o caixa virou dívida líquida

Em 13 de agosto de 2026, a Americanas divulgou prejuízo de R$ 274 milhões no segundo trimestre, contra R$ 98 milhões no mesmo período de 2025. O Ebitda ajustado caiu 51,5%, para R$ 145 milhões, e a receita líquida recuou 1,7%, para R$ 3,3 bilhões, de acordo com o Investidores Brasil. As operações consumiram cerca de R$ 400 milhões de caixa no semestre, segundo a companhia, valor que inclui os juros de arrendamentos.

Em junho, a dívida líquida era de R$ 1 bilhão, depois de um caixa líquido de R$ 488 milhões no fim de 2025, e a dívida bruta, de R$ 2,2 bilhões, está toda em debêntures, segundo a Bloomberg Línea e o Economic News Brasil. As vendas nas mesmas lojas cresceram 9,3% no semestre e caíram 0,6% no trimestre. O presidente Fernando Soares disse em março, segundo o Economic News Brasil, que o aumento das vendas exige mais crédito de fornecedores e bancos e relacionou a saída da recuperação judicial à retomada desse acesso. Não consegui ler o release oficial, então esses números vêm das reportagens, com a empresa como origem.

A empresa que sai é bem menor que a que entrou

A recuperação começou em janeiro de 2023 com cerca de R$ 43 bilhões em dívidas e mais de 16 mil credores. O plano, aprovado em dezembro de 2023 com 91,14% dos votos, previu descontos de até 80% para parte dos credores e um aumento de capital de cerca de R$ 24 bilhões, dos quais cerca de R$ 12 bilhões em dinheiro dos acionistas de referência, e o restante veio da conversão de dívida dos bancos, segundo a Bloomberg Línea e o BPMoney, que divergem em alguns décimos. A dívida bruta atual de R$ 2,2 bilhões é bem menor que os R$ 43 bilhões de 2023, mas as fontes que li não dizem quanto do plano ainda está por vencer nem em que datas.

A rede encolheu de 1.863 lojas em setembro de 2022 para 1.448 no fim de março de 2026, de acordo com a Bloomberg Línea. A Uni.co, dona da Imaginarium e da Puket, foi vendida por R$ 162 milhões em julho de 2026, e dez lojas da Hortifruti Natural da Terra foram para o Grupo Fartura por R$ 69,3 milhões, cerca de 3,3% dos R$ 2,1 bilhões pagos pela rede em 2021. A mesma reportagem registra que nenhum analista de banco cobria a ação antes da decisão.

Reputação se reconstrói com o comportamento que vem depois do comunicado

A palavra do dia foi marco, e o que muda de imediato é visível, o nome da empresa nos registros e a cotação, que fechou em alta de 6,99%, segundo a Bloomberg Línea. O fornecedor e o banco medem prazo de pagamento e resultado, e nesses itens os números de agosto mostram uma empresa que ainda perde dinheiro.

A maior parte da comunicação de uma crise de confiança acontece no dia do anúncio, quando a empresa fala, e a menor parte nos trimestres seguintes, quando ela precisa mostrar. A crise que levou a Americanas à recuperação nasceu de balanços que não correspondiam à realidade, o que um comitê independente confirmou como fraude contábil em julho de 2024, segundo o BPMoney, e as frentes criminais seguem abertas, com a Justiça Federal tendo tornado réus 12 ex-executivos na semana anterior à decisão, segundo o Mercado&Consumo e a Folha de Pernambuco. Marca que contou uma história errada uma vez só recupera credibilidade quando a história nova se repete por tempo suficiente, e três anos de processo ainda não são esse tempo.

O recurso, os credores e o saldo do plano seguem sem resposta

Não se sabe se haverá recurso, se algum credor vai pedir execução ou falência, quanto resta a pagar do plano nem em que datas. Também não se sabe se o prejuízo do segundo trimestre foi um tropeço de sazonalidade, como a companhia sugeriu ao falar do efeito da Páscoa, ou o novo patamar. O balanço do terceiro trimestre não aparecia nas fontes que consultei até 27 de outubro.

O processo na Justiça acabou, e o próximo capítulo vai ser escrito no caixa.


Fontes

  • Agência Brasil, "Justiça decreta fim da recuperação judicial da Americanas", 19 de outubro de 2026.
  • Conjur, "Recuperação judicial do Grupo Americanas chega ao fim", 20 de outubro de 2026.
  • Bloomberg Línea, "Justiça encerra recuperação judicial da Americanas três anos e nove meses após fraude", 20 de outubro de 2026.
  • BPMoney, "Americanas sai da recuperação judicial 3 anos após rombo de R$ 20 bilhões", 20 de outubro de 2026.
  • Investidores Brasil, "Americanas (AMER3) quase triplica prejuízo no 2T26", 13 de agosto de 2026.
  • Economic News Brasil, "Dívida da Americanas chega a R$ 1 bi após caixa líquido de R$ 488 mi", 13 de agosto de 2026.
  • Mercado&Consumo, "Justiça torna 12 ex-executivos da Americanas réus por fraude bilionária", 16 de outubro de 2026, e Folha de Pernambuco, mesma notícia.
  • A apresentação de resultados do 2T26, disponível no site de relações com investidores da Americanas, não pôde ser lida nesta apuração.
  • O comentário sobre a comunicação da crise é opinião do autor e não consta das fontes citadas.
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